segunda-feira, 28 de abril de 2014
ALulas [2014]
"No Coins"
Come on people everybody is away
Little sunshine shines me through days
You don't want to but you can see her tonight
She's so happy and makes me feel alright
There is no one around today
There are no coins on the way
If she's found safe
There is no fun on the way
Comom people I'm Going insane
Gloomy sunday, I'm lost in the haze
I don't want it but gotta to see her tonight
So strange but we'll be alright
"Empty Fields of Me"
I getting tired of this
Help me to resist
I can't feel a thing
I barely can’t think
Oh no I can't fight tonight
This time love bites hard
You can't exist
Without my loveless twist
Less I give more you take
Empty fields of me
"Edipo's Complex"
Everybody should knows
you can see her through the mirror
And everyone just says
You're only children don't see it!
Why it's gonna wrong
We're turning them can see
That means decay
Our story has no glory
I'll be your father
You'll be my mother
Even you can't run
Any decision is a broken reason
I'll be your father
You'll be my mother
"Jesus, the Uke Player from Hell"
Jesus lies on cartoon's ties
Playing a lovely lullaby
Dizzy and stoned while he sings
Dry blood over the strings
Tease times over my way
Cover your mind as they say
Wish more, ashes of the lies
Live for a selfish sky
Learning, learning everything
Burning, burning holy ground
Playing n' sing, amazing the crowd
The church is melting, sun spins
"Evil Dancers"
Evil dancers take me away
I have a feeling never betray
They got answers under their mind
Such a feeling never dies!
She said take it away
Love is not for fakes
Depressive singers blued me all day
I lost my feeling I'll betray
My answers lies behind their eyes
I steal them till they die
"Vegan's Ballad"
Dancin' their song
Singing along
Bring your friends
To the party of mess
This can't be suddenly
Feed me and leave
Hard cuisine
They will judge
fork in their hands
chewing the leaves
Murders of trees
"Blackness"
I'm an ancient sign
Let me rise again
I can't hide my pride
Hopeless I pretend
I wonder the reason why
I'm so blind my friend
Speak to me oh wait
I can't hear my friend
Blackness live through me today
I lost again, I can't see your face
"You're So Realized"
Don't blame yourself
by your future hell
You're so realized
Have no much to say
Stepping on her grave
You're so realized
Every little girl
Playing her show
You're so realized
Lost in her dream
another life scheme
You're so realized
I have no chance to win
down on my knees
You're so realized
Theres no way to go
Leave it alone
You're so realized
"Signal & Noise"
Soon can you see it
a place to believe in
Sometimes I can see a thing
May you can reach her
By her believing
May I can live through it?
Summer can't heat you
Winter comes to please you
Sometimes I can see your face
You need something
Something to reach you
Sometimes a thing is everything
All Songs & Lyrics by ALulas
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Eu sou um compositor ou compulsivo?
Minhas músicas surgiram de forma gradual, muita delas no
inicio mera copias dos meus ídolos, pedaços de acordes e tentativas de produzir
algum som. Sendo um músico medíocre, nunca consegui tocar uma música inteira,
sendo assim juntei minha arrogância e comecei fazer minhas músicas, se errasse
ninguém se importaria mesmo... Mas mesmo assim, inicialmente só conseguia fazer
o som, letras era algo difícil para mim, de certa forma tinha que se abrir bem
mais do que apenas juntar duas notas e encharca em distorção. Minha adolescência
sempre foi caótica e solitária, minha vida adulta não mudou muito, mas de vez
em quando tenho meus momentos de luz. De qualquer forma música foi à válvula de
escape que me manteve longe de uma navalha, além do meu orgulho.
Conforme cresci notei que todos meus professores eram músicos frustrados, era
muito depressivo (até para mim) e como Alan Moore já disse: “se eu não posso
ganhar o jogo, não tenho por que competir”. Sendo assim desiste de professores
(aprende muito pouco mesmo e sempre defende a tese que depois de se aprender
afinar o instrumento e conhecer seus acordes o resto vem gradualmente) e de ser
um músico. Em vez disso comecei a
desenvolver o que seria gravar minhas próprias musicas em mini-fitas cassetes (um
presente da minha mãe) e fazer tablaturas num caderno (nada muito requintado).
Então em plena idade de 18 anos, acumulava um total de 50 instrumentais,
algumas boas que sobreviveram e outras que desapareceram, mas mesmo assim ainda
faltava alguma coisa. Apenas tocar não era mais relevante, eu precisava me
expor mais e principalmente expressar coisas que eu nem sabia que existia.
Quando comecei a usar computador (eu relutei bastante em me atualizar, não sei
bem porque) tomei coragem de usar programas e comprar um microfone vagabundo (Shire,
imitação Paraguai do Shure). Eu tinha tanta vergonha das minhas músicas que
botava a distorção no 1.000 e deixava meu vocal bem baixo, mas como eu estava
na onda do rock alternativo o barulho de certa forma me dava segurança, ponto
importante que nessa época eu joguei fora todas minhas composições pré-18 anos fora , principalmente ás letras,
lembravam uma época de paixonites adolescente que preferia esquecer. Como não
conseguia fazer letras decentes me aprofundei na natureza de instrumentais e
onomatopeias cantadas (existe isso?), algumas renderam canções tardias, mas
grande maioria tinha aquela neblina de distorção e falta de direcionamento.
Num lance de brincadeira surgiu o “The Bear & The
Military Men” entre a minha recém-admiração por canções folk. Inicialmente eu conseguia
escrever letras, mas não eram completas e muita vezes apenas rascunhos
incompletos. Em uma noite, mal dormida, me acordei ás 3 da manhã e digitei
alguma coisa no meu celular, depois de algumas semanas eu acabei lendo a
palavra e pondo no minha lista de prováveis nomes do projeto (o nome original
não animava muito), das 10 o nome “ALulas” se destacou. Uma penca de pessoas me
pergunta o que significa? Realmente não sei, acho que foi por isso que
escolhemos esse entre os 10. O “AL” começou timidamente, com uma letra do Victor
sobre uma piada interna dos nossos jogos de basquete e no cantor folk Cat
Stevens. Tem um momento no show dele de 78 (eu acho) que ele fala: O que é esse
grande sorvete no céu? Desse negocio eu adicionei o marshmallow e eventos apocalípticos
numa viagem típica da nossa amizade de quase uma década. Assim nasceu o nosso “hit”,
The Great marshmallow in the Sky, que no final nem teve nada a ver com a ideia
original, mas de longe é uma que todo mundo gosta (não entendo bem porque). Mas depois dessa, o interesse do Victor caiu e
o AL ficou um tempo quieto, eu como esse doente que vive compondo fiquei no meu
minúsculo quarto compondo esboços como “Happy Face”, “Dancing With The
Grasshopper”, “To the Unknown” e assim por diante. Nos nossos jogos semanais eu
mostrava ás demos e Victor voltou a se manifestar e lapidamos ás letras, que na
real sempre foi a grande função dele no AL, ou seja, transforma minhas ideias e
dar palavras certas ao que quero transmitir (o que nem sempre é fácil) e além
do mais compomos algumas em parcerias. Querendo ou não o lance do humor lírico,
não foi de proposito, mas nossa demência sempre nos puxava para esse lado,
ironicamente ia mudar.
Assim feito tinha nove canções e mais algumas inacabadas,
o primeiro disco ás gravações correram de boa, mas de certa forma meu parceiro
de banda não tem o mesmo tesão que eu de “produzir” um pouco mais ás músicas,
sabe o básico adicionar alguns elementos e dobrar vocais. No Love Nipples, ele
tinha bastante paciência, mas aos poucos isso ia mudar e de certa forma fez o
disco ficar só com nove faixas, por que se continuássemos gravando talvez nós teríamos
matado um ao outro, provavelmente por isso ele até hoje odeie “Dancing With The
Grasshopper” porque não via moral nenhuma em fazer todas aquelas bizarrices
além de cantar. Falando em cantar. Eu sei muito bem que no inicio o Victor mais
dublava que cantava, mas nunca me incomodou na real, sentia algo original que
se pa nas minhas antigas composições faltava e pela primeira vez comecei a
expor mais meu trabalho, foi o AL e o compositor/compositor Diego Medina que me
inspiraram a deixar meus álbuns disponíveis na internet, na verdade o Medina me
inspirou mais e o AL me deu a coragem de ver um projeto meu audível.
Mesmo com a encheção de saco de ambos, novas canções brotaram
no período de natal/verão, agora eu estava muito influenciado por Beatles e
total devoção ás letras de John Lennon, de certa forma compondo melhor, não tão
dependente da muleta autoral do Victor e compondo mais como dupla mesmo, aquele
lance de se juntar e ter uma ideia geral da letra em si. Dessa vez não tínhamos
muito norte no que fazíamos, um dos meus erros foi querer fazer um hibrido do
AL e meus projetos particulares, o que rendeu algumas canções legais, mas que
de certa forma se perderam nas camadas de som que eu queria por, chegamos ao
ponto de quase termos um terceiro elemento na banda, o que não deu certo. O
cara tocava muito, mas não cantava e ás ideias dele eram muito longe da nossa
orbita (no fundo acho que nasci para ser um instrumentista solitário). Então
aos poucos coisas pessoais degastaram o disco que conseguiu ser menos que o
primeiro com apenas seis faixas, que mixei depois de uns quatro meses por que
estava com tanta raiva com o fim do álbum e da dupla que desenvolvi um projeto
solo na linha do AL.
O nome do projeto foi inspirado pela namorada de um
amigo, para ser mais preciso um comentário dele sobre ela. Enquanto ela
dedilhava um violão e praticamente sussurrava uma letra de alguma cantora
neo-folk que ela tinha me mostrado (ao qual não me recordo), ele chegou e pediu
para ela cantar mais alto, conforme o pedido negado disse “Sinfonia de sussurros”.
Em inglês fica mais legal, Whisper Symphony e esse nome grudou na minha cabeça.
Em janeiro eu dissolvi o AL, muito porque o Victor queria se dedicar cada vez mais
a sua namorada (logo eu também estaria na mesma situação) e como eu não tinha paciência
de esperar muito, achei melhor terminar enquanto ainda a gente podia ficar de
boa, das trinta canções apenas seis foram gravadas e ficariam num limbo por
alguns meses.
O “Whisper” tinha um nome, mas não inspiração para render
alguma coisa boa, mas conforme me apaixonei por alguma garota elas começaram
surgir, de longe o primeiro disco é reflexo do que eu sentia com o
relacionamento. A animação inicial, sexo, compartilhar ideias, assumir algo
como seu, o medo de perder, ódio das manias e claro o inicio do fim (mesmo que
o relacionamento não tenha acabado e continue se mantendo numa linha ténue de
amor e ódio adicionado a total falta de compromisso).
Durante esse tempo editei o segundo do AL, Songs About Something
Ep, desse “Summer Love” se destacou, em parte por causa de ser um dos poucos vídeos
bons que fiz na vida e outra porque a música é tão louca e cheia de símbolos
que é difícil não grudar na cabeça. A melhor citação que ouvi foi de um amigo
foi que ela tem acordes demoníacos e outra que não é tão memorável, mas foi um comentário
de uma pessoa alheia de que essa era a música “dela”, não me lembro de termos
composto ela para alguém, mas mesmo assim, é legal...
Esse foi o puxão de eu e Victor trabalharmos novamente em
algumas canções, com a lição aprendida no “Songs”, nosso lance era eu gravar
todo instrumental em casa, fazer ás letras com o Victor e gravar os vocais
depois. O esboço original das letras foi
meu e de longe é ás canções mais mal-humoradas que escrevemos. Muitas falando
do meu relacionamento cada vez mais caótico e no fato de cada vez mais eu acreditar
que vivia em algo que não deveria estar, mas ao mesmo tempo não quero sair (vish).
Musicalmente é um bom disco, onde eu voltei a nossa forma original. Além do
tema básico tem um pouco de humor negro em algumas faixas, mas no geral é um
disco liricamente pesado, não que ache que alguém se importe com ás letras além
de nós (ou talvez só eu), mas é bem depressivo ver como eu me sentia, ao mesmo
tempo é o mais redondo desde o primeiro, o que me deu certo orgulho. Dai em
diante eu notei que o AL é mais uma entidade que de vez em quando surge e cospe
algumas canções e parei de forçar a barra e deixar rolar.
Eu poderia falar do Whisper e Devitto’s Dead ao qual gravei
muitas coisas nesses quatro anos, mas vou me focar no que aprende e como
formatei meu estilo de compor. Primeiro e mais importante não se preocupar se é
bom ou ruim, não importa apenas grave. Cansei de ver que algo era bom meses/anos
depois de ter gravado; Segundo, nunca sature demais, ou seja, quanto mais breve
melhor, hoje condenso minhas ideias no menor formato possível; Terceiro sempre
grave para si, não que opiniões não sejam importante, mas foda-se sabe. Eu não
almejo sucesso, reconhecimento ou toda aquela babaquice, apenas quero fazer
algo que sinta que seja puro e não deva nada a ninguém. Eu sei que é piegas,
mas é assim que eu penso. Quarto, se você ama o que faz, invista em
equipamentos, nada muito caro: Um microfone decente, uma mesa de som e obviamente
instrumentos podem servir para traduzir aquele som de sua cabeça em algo real; Quinto
isso é mais do lance pessoal, mas cara você vai morrer, mas graças a mãe
internet, deixe seu material na rede, vai que daqui a 100 anos você seja igual
aqueles músicos obscuros que são descobertos e tem algumas centenas de fãs,
você vai estar morto, mas mesmo assim, a esperança de sua arte ser reconhecida
mesmo que tardiamente, eu gosto dessa ideia...
Voltando ao AL, bem depois de três anos nos fizemos quatro
canções que saiu num ep/ensaio chamado PapperCut, hã foi triste notar como estávamos
enferrujados e ao mesmo tempo nesse eu quis me dedicar a mais musicar ás ideias
do Victor. “Eu particularmente gostei de “Making Love With Death” e ”Befere It
Hurts”, mas do resto vish... tão sem sal e sem inspiração. Há antes dessas,
havia um ensaio de duas canções bem legais, ”Sea Song” (que provavelmente ainda
vai ser gravada) e “Beggining” que por algum motivo estão por aí em demos e
anotações de cadernos. Falando nisso o AL é o meu projeto que mais tem demos,
esboços e letras alheias, mas pouco material gravado. Então provavelmente eu
caio morto e não tenha posto tudo na rede.
Mas pensando no presente, onde estou me dedicando ao mix
do novo do AL, teve alguns percalços, para variar várias músicas descartadas (que
se juntam a mais de 30 canções não gravadas), letras depressivas com humor
negro e a adição de dois instrumentos novos, não apenas voz e violão, alias não
tem violão. O pouco que eu ouvi eu gostei, mas como meu gosto sempre foi meio
duvidoso não confiaria muito.
terça-feira, 15 de abril de 2014
UkeAttack - III [2014]
"Parasite"
Let's feel something else
Maybe you can help yourself
They breed from trees
They're part of me
Come on and see
parts of me
My long disgusting throne
May you can live
Positive dreams
I can cheat you along
Lives in my dream
every single scene
Pulling the strings
Being part of me
"Ahead"
Look at me I'm on my own
Can't hear my words are gone
Easily I can't stay
Face me a little less insane
Find yourself lonely
Keep yourself everyday
Heal yourself is up to you now
Keep yourself anyway
I can't see so ahead
But I believe I can stand
Sometimes I fall through the ages
At the end I rise again
"The Main Stage Clown"
Every single notion
Balance over oceans
Waves of conversation
Script of my creation
Hide yourself on words now
Cheat yourself, Laugh with the crowd
Hear yourself, the main stage clown
Be Yourself in your words now
They live under your domain
They do what you say
They don't have skills
Livin' in your creation
"Soneca"
I don't have a life, go away!
Under my disguise, I'll fade
Skip your lies, I'm own my way
I don't fantasize, I live today
Buy myself some lovers hate
Keeping my own decay
Sometimes I shouldn't play
It's ok? or another phase
Your single mind keep me insane
In other life may I stay
Dreaming
Cause you're dreaming
Dreaming
"Sharp Knife"
Sing my open hate
Love's all mistake
Make me suffocate
Drown on my rage
Lets have some faith
Need more than I take
Tie me on your lies
I need a sharp knife
"We Got News"
We got news
about you
whatever it says
only you'll have
Something goo
or mayber a chose
whatever it says
only you'll have
"Hear Me"
Hear me cause I have to speak
See is lose everything
I see everything
All Songs & lyrics by andré
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
sábado, 8 de fevereiro de 2014
UkeAttack - II Ep [2014]
Mais uma que escrevi com meu novo Uke, dessa vez acho que me esforcei em aprender alguns acordes novos e fazer ritmos diferentes...
Godless
You play the Godless like no one
See them or leave them, you don't belong
You raise your god and that's no fun
See them or leave them, you don't belong
You test our Father and that's no fair
See them or leave them, you don't belong
You smash our Father and I don't care
See them or leave them, you don't belong
Golden Chains of Love
I got a feeling
that you'll leave me
like ten years ago
I hate to feel this
I don't wanna see it
By a future, we blow
I don't love you
I live above you
Golden chains of love
I need less you
I Just Please you
we can't change love
Piggy Lullaby
Sing me up a lullaby
if you believe pigs can fly
save me from the eternal flies
a place in between tender lies
Fill me up till I can't hide
May you can see selfish signs
Seen before, ambush sky
Badly and hopeless I can't die
Comum People
Comum people, come to see
Common everything that breath
I hope you all die!
Bring your lies, bring to me
Comum people, come to see me
Uncle Bob
Look out kids!
Uncle Bob was around
He has many toys to show
At least do you think so
Watch out kids!
Don't leave your moms now
Bob have no one to talk
There is a pity but you don't wanna
Play with Bob the pedophile
He has a third arm
Who talk too much
A little bit too much
I meet Bob once
And thinking well
I never been the same since
All songs & Lyrics by André
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Campos de papoula no Ártico
Ela chega atrasada na parada do ônibus, a fila que passa
de cinquenta pessoas, cansadas da jornada diária de trabalho. Passa na roleta,
paga a quantia absurda que rouba boa parte do seu salário todo mês e vê que
como em toda sua vida não consegui parar de sorrir, talvez algum trauma de
infância, quem sabe alguma maneira de lidar com o stress, difícil dizer. Com
sorte se senta no banco na frente do cobrador encarando a face entediada dos
passageiros, arranca uma maçã da bolsa e a mastiga com atenção. Seus olhos
param num homem relativamente obeso que parece ter seus 24 anos mais ou menos,
camisa social de mangas curtas cinza (notasse uma mancha de caneta vermelha,
acima do bolso no lado esquerdo), barba de mais ou menos duas semanas, sob o
rosto um nariz torto. Ele sorri e a olha fixamente para janela e ocasionalmente
para ela. Termina de comer sua maçã meio que hipnotizada por ele, pensando: “Essa
figura esconde alguma coisa, sempre desconfiei de pessoas que sorriem demais e a
encaram com seus olhares cínicos. Provavelmente algum estuprador intelectual,
daqueles que firmam suas bases em fontes como wickpedia e toda essa merda que
vemos na internet. Odeio esse lixo de pessoa, ele parece tão metido, do tipo
que olha ás pessoas de cima para baixo. Tímido demais para flertar diretamente
comigo, pena para ele que tenho visão periférica”.
Aos poucos sente seus olhos descendo, esta com muito
sono, cansada do trabalho, da vida e da humanidade (pequeno exagero filosófico).
Mas ela teima em não se deixar adormecer, mas a cada solavanco se acorda como
se estivesse sido extirpada de algum sonho, sua visão se fecha no sorriso do
homem, como no desenho da Alice (no país das maravilhas), aquelas teclas
amarelas dançam na sua visão a puxando para um labirinto que não pode escapar.
- Acorda “Alice”...
- Acorda “Alice”...
A voz a chama no escuro, estranha e de certa forma
familiar, ao fundo ela ouve a conversa de várias vozes. Não entendendo uma
única palavra, como se fosse outra língua, mas sabendo que é sobre ela. No máximo
ela é só uma consciência nesse vácuo negro de cochichos, não tem poder nenhum,
ou sequer a sensação de um corpo, apenas uma presença.
- Não que eu não adore olhar você desse jeito tão
indefesa e linda, mas sabe... Eu só posso ajudar se você acordar, o caminho é
longo e creio que dependendo de suas atitudes, vai ter um longo descanso depois.
Ela desperta como se tivesse levado um murro forte no
rosto, visão embaçada, desorientada, ônibus vazio, completamente vazio e uma
iluminação de hospital que chega a cegar. Ao seu lado o simpático semi-obeso
sorri sem mostrar os dentes, tentando se mostrar amigável.
- É sempre divertido ser acordada por estranhos né? Não
precisa responder... (ri de forma engasgada, sugando saliva, som similar a de
um porco). Bem é nessa hora que te estupro?
É difícil dizer se foi uma piada, ou não. Se foi, não
teve muita graça, eu acho que ele notou. Por que olhou para baixo como criança
que disse o que não devia, até fica bonitinho assim...
- Ok, ok, ok... Há eu deveria ter deixado essa piada de
lado há muito tempo, um dia ainda vou pagar pelo que digo. De certa forma já
paguei, ou estou pagando ainda? Não sei...
Mas chega de falar de mim mulher, bem eu sou o que chamam de acompanhante (não do tipo sexual infelizmente) e sim aquele que vai te levar para o próximo “julgamento”, o pra valer. O “pré” que você passou nesse momento, sabe ás “vozes sem sentido” é apenas o começo.
Mas chega de falar de mim mulher, bem eu sou o que chamam de acompanhante (não do tipo sexual infelizmente) e sim aquele que vai te levar para o próximo “julgamento”, o pra valer. O “pré” que você passou nesse momento, sabe ás “vozes sem sentido” é apenas o começo.
Ela o encara, contorce todo corpo pensando o quão babaca
ele é se achando engraçado num momento que provavelmente nem ele sabe o que
significa, sem forças e indefesa perto desse fanfarrão. Mas algo a impele a
pular em cima dele com ás mãos em sua garganta enquanto grita coisas sem
sentido e tenta chutar suas partes baixas ao mesmo tempo (procedimento padrão
feminino). Para um babaca gordo ele é bem rápido, girando o corpo ele a derruba
no chão (estranhamente não sente nenhuma dor) e põem o pé contra suas costas a
imobilizando.
- Olha isso é tão divertido para mim quanto para você!
Acho que você claramente não tem o mesmo humor que eu nessa situação. Mas como
ia dizendo, nesse exato momento a senhorita esta passando pelo estagio de
desencarnação, vulgo deixar o corpo e suas neuroses para trás. Aqui nesse mundo
eu sou tão perigoso para ti quanto você é para mim, então podemos nos sentar e
conversar como adultos?
De cara contra o chão espelhado do ônibus, ela olha indiretamente
para os seus olhos castanhos, pela primeira vez sentindo uma simpatia por ele.
Jogando o cabelo para cima com a intenção de tira-lo do rosto, encarando o,
acena levemente. Aos poucos ele tira o pé de suas costas e se afasta e se senta
no banco da frente, esperando calmamente. Conforme ela se levanta, ele olha
para o pulso sem relógio e finge estar impaciente (continua sem graça).
- Bem, agora que nos conhecemos melhor (da uma leve
piscada e sorri maniacamente). Deixe-me explicar nossa jornada, esta vendo esse
belo busão branco nos levando “através do nunca”? Sim, minha dama isso é sua
ultima visão do mundo terrestre, “transporte público”. Não é das melhores, mas
poderia ser pior! Sugiro que não olhe para a linda paisagem ao lado, se for
muito apegada a coisas mundanas, sabe tipo “vida” e coisas do tipo...
Pelas janelas ela via passarem conquistas, derrotas,
traumas, amigos, seus familiares, ídolos, planos, sonhos, lugares, etc. Tudo
emoldurado num quadro dividido entre presente, passado e futuro. Num ponto ela observava como seria sua vida se
tivesse encontrado o amor da sua vida. O homem entorta o pescoço olhando com
pouca simpatia.
- Sempre acho divertido isso, todos nós temos isso na
nossa linha do tempo. Sabe a “alma gêmea”, ou talvez o que achamos que seja.
Sabe minha teoria? Eu acho que é uma ilusão, ou o quão sádico seria o nosso
“Deus” nos deixar ver isso? Logo após saber que nunca poderemos encontrar essa
pessoa, eu acho...
Encarando seus all stars vermelho, ele desaba sobre os
ombros de cabeça baixa, mas logo um sorriso macabro assombra seu rosto
escondendo toda dor que parece sentir, voltando com o seu cinismo inicial. Ao
lado passa toda sua vida através dos vidros, rápido como um sulco arranhado de
um vinil, mas ao mesmo tempo compreensível e nostálgico. Isso a faz pensar no
que há pouco tempo chamava de vida, tudo passou tão rápido, ser usurpada assim
sem ao menos ter chance de se despedir. Não era justo!
De repente o visor do ônibus indica “parada solicitada”,
com uma leve parada a porta se abre. Na porta uma menina de cabelos escuros, um
vestido azul claro e all star preto nos pés, o cabelo solto, na altura dos
ombros. Sorrindo e emanando uma felicidade genuína que a chamava (não
verbalmente, mas sim na cabeça dela), cada vez mais forte e mais tentadora,
levando a algo conhecido que havia perdido. Levantando-se, a cada passo em
direção à menina que um dia foi e de certa forma ainda esta ali. Quando estava
preste a alcançar a mão da menina, algo a jogou contra a parede com força, o
impacto a atingiu como se tivesse quebrado todos os ossos, juntando forças para
se levantar e correr. Sentiu um soco no rosto a derrubar de novo, levantando o
rosto para ver o que a atingia um chute certeiro na boca à fez cair, a sensação
de ter perdido todos o dentes a fez parar. Na sua frente uma figura all stars
vermelhos, calça jeans preta e camisa social cinza e o rosto demoníaco.
AS LUZES SE
APAGAM.
Cegada novamente pelas luzes fortes, o pouco que via dava
para notar que o “busão’ estava em movimento de novo, porta fechada e ás
imagens da sua vida passando pelas janelas de forma mais distorcida. A figura
demoníaca sumira. Por algum momento se sentiu extremamente sozinha e como se
tivesse perdido algo muito importante, algo que queria ter, mas no fundo sabia
que sua posse era passageira, mas mesmo assim queria encapsular aquilo para
sempre. Ouviu uma voz suave vindo do banco onde estava sentada, ele permanecia como
se nada tivesse acontecido, falando amigavelmente com ela.
- Esse é sempre complicado, sabe... A infância, a minha não foi tão divertida.
Adicione pai ausente e irmão mais velho torturador. Mas sempre me pergunto se
na minha vez, não fiquei tentado também. Quando se envelhece a infância é algo
que sentimos falta. A ingenuidade e inocência de cada momento ser único, até
ser destruída por tudo que nos rodeia. Nada fica puro por muito tempo, mas não me
ache amargurado nem nada, só curto a ironia.
Ele olha de forma debochada, tentando esconder o que
sente de novo, mas sabendo que é perda de tempo. Levanta e calmamente vai à
direção do corpo que se encontra no chão encostado na parede e estende a mão.
Ela baixa o rosto tentando visualizar ás hematomas que não existem, os dentes
no chão e olha de volta. Não há remorso e nem culpa no rosto, como se fosse
algo que deveria fazer. Ela se levanta sozinha e caminha calmamente para o
banco onde estava, ele a observa constrangido, mas não parecendo se importar
muito, a espera sentar e volta tentando assobiar uma canção que lembra uma
melodia dos Beatles. Os dois ficam em silencio por alguns momentos, que na
realidade parecem ser uma eternidade.
Vendo que ela não pretende falar, ele tenta articular
alguma coisa para chamar a atenção “ela ficar olhando para o que foi a vida,
não ajuda muito durante a passagem” (resmunga).
- Existe um compositor (ou pelo menos existia) que
escrevia muitas músicas, mas muitas mesmo. Igual a um “serial killer” se me
entende? Ele sempre quis ser músico, mas de certa forma nunca poderia ser, suas
canções eram muito pessoais para serem divididas. Talvez fosse sua natureza
muito critica que o limitava, ou o fato de que quando compunha uma canção nunca
pensava muito no que ela significava no momento, era como se fosse um pedaço de
carne exposto, cru e vivo demais para digerir. O que sempre me chamou a atenção
nas obras dele era como ele juntava algo simples a frases que não tinham
sentido algum aparentemente. Uma vez perguntei: Você não sabe explicar nenhuma
das suas letras? Ele respondeu: “Não na hora, mas depois tudo faz talvez sim.”
Nunca entende o que ele quis dizer, mas agora eu acho que sei. Tem coisas que
só ganham sentido depois, sabe quando se olha para trás, como só se tivesse
sentido no final de toda obra estar montada, igual a um quebra-cabeça. Muito dos
versos que ele pôs no papel eram só rimas, coisas que soam legais junto, mas o
inconsciente dele dizia muito mais, ele não tinha controle sobre isso. No fundo
a vida é assim, uma obra inacabada e imperfeita.
O ônibus parou dessa vez sem fazer barulho nenhum, a
porta se abriu e através dela ela via um vácuo que não poderia ser definido,
onde se encontrava tudo o que deveria ser e não ser ao mesmo tempo. Um borrão
que formava um universo inominável. Ele acompanhou os olhos dela se perdendo na
coisa e apenas sussurrou.
- A primeira vez eu seguro, agora você esta por ti. Esta
vendo aquela coisa sem forma? Diremos que ela uma armadilha continua, sem
passado, presente e nem futuro que prende sua alma nesse stato quo. O fato de
não ser nada e ao mesmo tempo ser tudo é interessante, mas ouvi falar que o fim
da linha é bem melhor, talvez todas suas respostas estejam lá, ou talvez não.
Mas só tem um jeito de saber.
A coisa tomava formas, mas nunca se definia, seduzia com
tantas dimensões que era difícil dizer em qual se poderia embarcar. De certa
forma se alimentava de quem a olhava, pegando todos seus desejos e condensando
em um, a coisa a encarava sem dizer nada com coisas que não pareciam olhos e ao
mesmo tempo sim. O “acompanhante” a olhava com um olhar divertido, ele falou da
coisa, mas em nenhum momento olhou para ela diretamente (quase que como a
temesse também), sorrindo fez sinal que faltava pouco. O ônibus fechou a porta,
mas não entrou em movimento, estático, sem imagem nas janelas, escuridão absoluta.
E do nada, eles estão caindo numa velocidade que a fazia subir até o teto,
menos ele que a olhava com um olhar curioso, ela sentia que a queda estava cada
vez mais próxima e não havia nada a fazer. Ele se levantou e a olhou de forma
perversa como se estivesse enlouquecido com a queda e começou a rir cada vez
mais alto, e mais alto a ponto de a risada ser a única coisa no ar.
AS LUZES SE
APAGAM.
O ônibus tinha um aspecto vitoriano, se é que era um
ônibus, parecia mais um trem de época, provavelmente século XIII. Papel de
parede verde escuro em contraste com ás janelas de madeira, no lugar de vários
bancos havia luxuosas poltronas marrons de couro sob uma tapeçaria vermelha
escura. Em cada canto do vagão havia uma luminária com luz amarela exceto o
direito onde estava o lugar do cobrador havia um bar com um barman de calças sociais
preta, camisa branca e colete vermelho com gravata borboleta feito de cartolina
em tamanho real. O gordinho parecia se divertir com a cara dela.
- E dizem que “Deus” não tem senso de humor... Ok, isso é
meio estranho vou ter que assumir, mas depois que se esta há algum tempo aqui
tudo parece normal. Menos aquele maldito barman que nunca me servi um drink!
Mesmo que eu não beba seria bom de vez em quando. Estamos quase no final, que
tal mais uma estória? Já conheceu alguém que vinha e saia da sua vida? Um amigo
ou qualquer coisa parecida. Aquela pessoa que poderia estar há anos afastada,
mas toda vez que se encontravam era como se tivessem se falado noutro dia. Eu
conheci uma garota assim, sabe como se fosse para ser “a”, mas nunca foi. Quase
como algo que devia encaixar, mas por alguma razão não encaixa, te deixa com
duas peças solta e você sabe que no final cada peça vai se perder e não há nada
que possamos fazer, todos estamos fadados a percorrer um abismo solitário sem
fim.
O trem parou como um certo esforço, como se estivesse
realmente nos trilhos, a porta do vagão se abriu lentamente revelando várias
pessoas caminhando de lá para cá numa tela escura, rosto pálidos e cabisbaixos
parecendo extremamente preocupados, ninguém conversava ou parecia notar a
presença um do outro (sozinho entre milhões). O homem sorriu e se levantou
calmamente, se espreguiçando durante o caminho ele assobiava os acordes
iniciais de “Imagine” de John Lennon, antes de sair ele virou.
- Bem esse é meu ponto, daqui você esta sozinha, mas nada
tema guria. Diferente de mim é apenas por algum tempo. Mas vamos dizer que não
aprendemos algo hoje? Eu não sei bem o que, por que toda vez que meu tênis toca
esse chão canceroso é como se nada tivesse acontecido. Eu volto para meu
quarto, pego meu violão, escrevo algumas músicas e as contemplo por um tempo, tento
entende-las, mas não consigo. Eu diria “até mais”, mas você sabe...
Ela sorriu para ele pela primeira vez, provavelmente por
pena, mas ao mesmo tempo intrigada pelo que eles haviam passado até ali. Mesmo
que perda a companhia de um cara tão irritante, ia sentir falta dele. Até mais
do que deveria, depois de tudo isso. Ela sentia que preferia estar com alguém
que não conhecesse do que ir para um lugar que nem sabia o que era. Assim que
ele pisou na tela escura, caminhou como se nem tivesse saído de dentro do vagão.
Ela olhou inquieta, não conseguia aguentar a solidão,
mesmo que fosse por tão pouco tempo. Algo no corpo dela dizia para correr atrás
dele, ela tentava resistir, mas até ali, ele havia sido seu único amigo, que a
protegeu dos demônios e dela mesma. Quem iria protegê-la no final disso tudo? A
porta começou a se fechar lentamente, e ela via a figura corpulenta cada vez
mais longe, entrando no mar de espectros, passando por eles e chegando ao fundo
da tela. Num segundo ela estava correndo em direção à porta, com toda
velocidade que podia correr, pensando em alcança-lo e dizer o quanto queria lhe
fazer companhia, ser sua amiga e nunca deixa-lo sozinho. Assim que pisou no
vazio todos desapareceram, os fantasmas, um por um foram se apagando a sua
frente até chegar ao seu acompanhante que sumiu como uma estrela cadente no céu
negro e ao virar para trás o trem havia partido.
Assinar:
Postagens (Atom)
